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05/07/2016

[A Espiritualidade Feminina] O Despertar das Mulheres para A Deusa #5

(arte de Kat Verhoeven)

Essa é uma série dividida em 5 partes sobre a espiritualidade feminina e as origens da religião da Deusa, baseadas no livro "Círculos Sagrados para Mulheres Contemporâneas", de Mirella Faur.
Leia aqui a primeira parte, a segunda aqui, a terceira aqui e a quarta aqui.
Chegamos à última parte!

O Despertar das Mulheres para A Deusa

"Mulher eu sou, espírito eu sou,
tenho o infinito dentro de mim,
não tenho começo e não tenho fim, eu sou assim"
(Canção dos círculos de mulheres norte-americanas)

Por meio de livros, palestras, imagens, sonhos, visões, meditações e diálogos com outras mulheres, participação em rituais, contato profundo com a Natureza, experiências místicas, lembranças espontâneas, terapias de renascimento ou regressão são ativados e trazidos à mente consciente os antigos registros de existências anteriores em que a Deusa era cultuada. Uma vez despertadas essas memórias ancestrais e estabelecida a conexão com a lembrança adormecida do primeiro impulso religioso humano centrado em uma Mãe Criadora, dificilmente a mulher abandonará esse caminho, que a levará de volta para a verdadeira fonte divina e ao encontro de si mesma. Em contraste com a figura de um deus velho, barbudo e sisudo, aparecendo entre as nuvens, as imagens tocantes da Deusa são telúricas e cósmicas, maternais e carnais, evocando a sacralidade e fertilidade da Natureza e da figura feminina. Mais do que histórias, mitos ou palavras, as estatuetas e as imagens das deusas paleolíticas e neolíticas trazem à tona memórias ancestrais de participação em cultos que reconheciam e reverenciavam o poder feminino - divino e humano. Sem corresponder aos cânones da beleza contemporânea, a representação do corpo das antigas deusas realça a capacidade criadora e nutriz da mulher, dom intrínseco e inato que independe da idade ou da perfeição física.
A Deusa era o símbolo da unidade de toda a vida e da Natureza, respeitada e venerada como algo sagrado e misterioso, presente em tudo: na água e na terra, nas grutas e montanhas, nos animais, peixes e pássaros, nas árvores e flores, nas estrelas e no vento, nos homens, nas mulheres e nas crianças. As antigas imagens da Deusa têm inspirado e conduzido as vivências da sacralidade feminina no movimento contemporâneo do "retorno à Deusa". É importante que voltemos a visualizar a Fonte Criadora como Deusa e Mãe amorosa, falando sempre o seu nome, para romper os padrões enraizados na nossa mente de um deus e pai dominador, que vê e julga os nossos atos, punindo as transgressões humanas, conforme relata a bíblia
Segundo Carol Christ, autora de Rebirth of the Goddess (Renascimento da Deusa), "As imagens e invocações da Deusa acabam com o controle masculino que formou os nossos conceitos, não somente de deus, mas de todo o poder universal". Os vislumbres intuitivos sobre a Deusa podem ser repentinos, mas também podem levar um tempo para mudar nossos paradigmas, pois precisam ser assimilados pela nossa mente e vividos e expressos nas nossas atitudes e ações. Contudo, para manifestar seu poder nas nossas vidas, além de imagens e mitos, precisamos de rituais, que criam novas formas de expressão e motivação, reencenando antigas práticas e criando altares como pontos de força e atração da presença da Deusa. A experiência é fundamental para a ampliação da consciência e a reconexão com os arquétipos e símbolos da Deusa.

28/06/2016

[A Espiritualidade Feminina] O Retorno à Deusa #4

(arte de jessadilla)

Essa é uma série dividida em 5 partes sobre a espiritualidade feminina e as origens da religião da Deusa, baseadas no livro "Círculos Sagrados para Mulheres Contemporâneas", de Mirella Faur.
Leia aqui a primeira parte, a segunda aqui, e a terceira aqui.

O Dualismo

Em oposição à antiga cosmologia da Deusa, que afirmava a unidade e harmonia entre vida e morte, começo e fim, refletidos nas suas facetas de Doadora, Ceifadora e Regeneradora da vida, a teologia cristã impôs o dualismo.
Enquanto Deus é uma força espiritual e transcendente, a Deusa é imanente e permanente, presente em todas as formas, energias, seres e ciclos naturais. A visão dualista, hierárquica e patriarcal preconiza a superioridade de uma polaridade sobre a outra, criando assim o antagonismo entre elas: espírito/matéria, mente/corpo, racional/intuitivo, espiritual/sexual, homem/mulher.
A Tradição da Deusa considerava a alternância e complementação das polaridades e elementos como uma realidade natural; porém as novas concepções patriarcais criaram a cisão e oposição entre forças e energias, antes integradas na multiplicidade dos aspectos da Grande Mãe. As antigas culturas matrifocais e geocêntricas honravam e celebravam igualmente a luz e a sombra, o dia e a noite, o Sol e a Lua, a vida e a morte, o espírito e a matéria, o homem e a mulher, pois tudo fazia parte da criação divina. Na visão dualista e patriarcal, houve uma distribuição desigual de valores; tudo o que era bom, nobre, valioso, luminoso, benéfico, coerente, fixo, racional e mensurável foi atribuído ao princípio masculino e aos homens, criados à semelhança do Deus imutável e transcendente. As energias mutáveis da Natureza e da mulher tornaram-se sinônimos da imperfeição, do perigo e do instinto selvagem e irracional, que devia ser dominado e controlado. As mulheres foram associadas à escuridão, ao pecado, ao mal. à luxúria, à irracionalidade, à impulsividade, à imprevisibilidade, à inconstância e a todos os "perigos" carnais e sexuais.
Apesar das tentativas dos sistemas religiosos e culturais de extinguir os vestígios dos cultos e da simbologia da Deusa, podemos discernir imagens e costumes que sobreviveram nos mitos e nos folclores e que foram assimilados pelo cristianismo. Apesar de transformada em traidora do seu sexo, Athena era honrada como padroeira da cidade de Atenas no seu simbolismo oculto de "Senhora da Rocha" (onde está a Acrópole, seu antigo templo, símbolo da força e do poder da cidade), da oliveira (símbolo da paz) e dos seus animais de poder (a coruja e a serpente), totens das deusas pré-cristãs. Segundo a mitologia grega, as mulheres atenienses perderam os direitos de cidadania porque, na fundação da pólis, elas haviam votado em Athena para nomear a cidade. Para apaziguar a ira do furioso Poseidon, deus dos mares, que concorria com a deusa, as mulheres foram condenadas a viver à sombra de seus amantes e maridos. O fato é que logo depois, na Grécia antiga, com exceção de Esparta, as mulheres não tinham mais direitos políticos ou civis, isto é, não eram cidadãs. A função das mulheres era a de esposas. Deveriam permanecer sempre ocupadas com o tear e os cestos de lã, como a lendária Penélope, que, na Odisseia de Homero, passou anos a fio à espera de Ulisses, reafirmando diariamente sua fidelidade ao marido ausente em função da guerra.
Os homens perderam a votação por haver mais mulheres na polis, resultando na vitória de Athena. Revoltados, tiraram a cidadania da mulher, colocando-a no mesmo patamar de escravos.

08/06/2016

[A Espiritualidade Feminina] O "Declínio" da Deusa #3.

(fotografia por Natalia Drepina)

Essa é uma série dividida em 5 partes sobre a espiritualidade feminina e as origens da religião da Deusa, baseadas no livro "Círculos Sagrados para Mulheres Contemporâneas", de Mirella Faur.
Leia aqui a primeira parte, e a segunda aqui.

O "Declínio" da Deusa

Nesse período, começou um longo e insidioso processo de "destronar a Deusa" com o intuito de dar sustentação a legitimidade à nova cultura patriarcal e guerreira. As deusas das culturas paleolíticas e neolíticas foram rebaixadas do seu status de Mães Criadoras, Senhoras da Terra e da Natureza e passaram a se subordinar aos deuses da nova ordem. A religião deixou de demonstrar reverência à Deusa, à Terra, à Lua, à mãe, à mulher, à vida, e passou a demonstrar reverência ao céu, ao Sol, a Deus ao homem, ao pai, à morte e à guerra, e uma nova hierarquia espiritual foi estabelecida em sintonia com a estrutura social. A Deusa foi relegada a um plano secundário nos mitos, como mãe, esposa, amante ou filha de deuses dominantes. As Grandes Mães divinas como Cibele, Deméter, Gaia e Tellus Mater, cultuadas como Senhoras da Terra e dos seus ciclos e frutos, foram reduzidas a meras personificações de terra e da matéria.
Com o intuito de despojar a Deusa do seu antigo poder e da sua importância todo-abrangente de outrora, os mitos foram reescritos por patriarcas e profetas, de modo a enfatizar os poderes de Deus. À Deusa foram atribuídas - não mais a totalidade dos aspectos da criação -, mas somente as forças consideradas "escuras" e maléficas. Seus símbolos foram reduzidos, prevalecendo os dragões e as serpentes (que deviam ser vencidos e mortos por semideuses ou heróis), a escuridão, a noite, os pássaros agourentos, a Lua negra, os gatos pretos e todos os sinônimos de perigo e azar. Para invocar a benevolência dos novos deuses e justificar a matança de prisioneiros, escravos, mulheres e crianças "inimigas", novas lendas que estimulavam o derramamento de sangue humano surgiram para aplacar a ira divina e consagrar as terrar conquistadas, antes abençoadas pelo sangue menstrual das sacerdotisas e pelos ritos de fertilidade sazonais.
Os mitos de criação foram deturpados e deixaram de conter conceitos primordiais em que a Deusa criava o universo e a vida. O mito babilônio Enuma Elish, por exemplo, teve sua primeira versão reescrita entre 668-626 A.C. Esse mito descreve a morte de Tiamat, a Criadora primordial da religião suméria, Senhora do Oceano da Vida, pelas mãos do seu filho Marduk que usurpa seu lugar e poder e do seu corpo retalhado e cria a Terra, o céu, as estrelas, os planetas e os seres humanos, para servir aos deuses. Para justificar o crime, a Deusa é acusada de gerar monstros malignos - serpentes venenosas e dragões destruidores - para se defender dos planos de Marduk. O contador do mito tenta, por todos os meios, justificar o crime, implorando pela conivência dos ouvintes e descreve com detalhes o esfacelamento do ventre grávido da Deusa, pisoteado por Marduk depois de tê-lo esfaqueado. Dessa maneira, ao celebrar "o massacre da Deusa", incentiva-se a violência contra as mulheres, tanto nas guerras como nos lares, em caso de subordinação, e a necessária e recomendada punição.

30/05/2016

[A Espiritualidade Feminina] A Origem da Religião da Deusa #2

(fotografia por Stephanie Pearl)

Essa é uma série dividida em 5 partes sobre a espiritualidade feminina e as origens da religião da Deusa, baseadas no livro "Círculos Sagrados para Mulheres Contemporâneas", de Mirella Faur.
Leia aqui a primeira parte.

A Origem da Religião da Deusa

As origens da religião da Deusa se perderam na noite dos tempos; anteriores a qualquer uma das religiões atuais eram os cultos da Grande Mãe, reverenciada por milhares de nomes e atributos. Em todas as civilizações antigas existiu um culto à Mãe Criadora e Mantenedora da Vida. Suas representantes humanas - as mulheres - eram honradas e respeitadas pelo seu dom milagroso de gerar a vida em seu ventre e nutri-la com o leito dos seios.
Os mais antigos mitos da Criação descrevem a organização do caos e a formação da vida como atos conscientes e amorosos de uma Deusa Mãe. Esculturas e imagens do período Paleolítico e Neolítico representam o sagrado ato de geração e nutrição na forma de mulheres, cujo corpo guarda e revela os mistérios do ciclo da vida, morte e renascimento. Essas imagens expressam conceitos cósmicos considerados de natureza feminina e contidos em uma rica e variada simbologia. Esses conceitos constituíram a fundação sobre a qual se ergueram muitas culturas antigas.

27/05/2016

[A Espiritualidade Feminina] A Tradição da Deusa #1

(fotografia por indinell)


Todas nós viemos da Deusa
e a Ela retornaremos
Como gotas de chuva
Fluindo para o oceano.
(Canção de Zsuzsana Budapest)


A Tradição da Deusa

Um dos mais marcantes fenômenos do século XX foi o renascimento da religião da Deusa na cultura ocidental. Presente desde tempos imemoriáveis em todas as civilizações antigas, o princípio sagrado feminino personificado em múltiplas facetas e arquétipos da Grande Mãe foi eclipsado, depois renegado e aos poucos ocultado pelos conceitos e dogmas das religiões patriarcais. Existem atualmente várias religiões e caminhos espirituais tradicionais e modernos, mas eles são desprovidos de tradições sagradas para mulheres, e alguns chegam até mesmo a promover e defender "incontestáveis" autoridade e supremacia masculina.
Apesar do ocultamento, a Tradição da Deusa não chegou a desaparecer totalmente; ela seguiu um ciclo de ascensão, florescimento e declínio devido às transformações sociais e culturais ocorridas nos últimos 4.000 anos. Seus registros, no entanto, permaneceram nas memórias ancestrais, no inconsciente coletivo, nos costumes populares e nos contos de fadas. Muitas das tradições pré-cristãs, dos rituais pagãos de comemoração da Roda do Ano e dos ritos de passagem da vida humana foram absorvidos pelo cristianismo, que edificou suas igrejas nas ruínas dos antigos templos das deusas greco-romanas, celtas e nórdicas. A sabedoria ancestral foi "codificada" e ocultada em mitos e lendas, práticas nativas, ensinamentos das escolas de mistérios, arcanos do tarô, tradições populares e ditas "superstições".
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