
(arte de Renata Nolasco)
Toda árvore possui por baixo da terra uma versão primeva de si mesma. Por baixo da terra, a árvore venerável abriga "uma árvore oculta", feita de raízes vitais constantemente nutridas por águas invisíveis. A partir dessas radículas, a alma oculta da árvore empurra a energia para cima, para que sua natureza mais verdadeira, audaz e sábia viceje a céu aberto.
O mesmo acontece com a vida de uma mulher. Como a árvore, não importa em que condições ela esteja acima da terra, exuberante ou sujeita a enorme esforço... por baixo da terra existe "uma mulher oculta" que cuida do estopim dourado, aquela energia brilhante, aquela fonte profunda que nunca será extinta. "A mulher oculta" está sempre procurando empurrar esse espírito essencial em busca da vida... para cima, para que atravesse o solo cego e consiga nutrir seu eu a céu aberto e o mundo ao seu alcance.
Seus períodos de expansão e reinvenção dependem desse ciclo. Você já amou uma árvore? Se amou uma floresta ou uma árvore, sabe que existem árvores que, apesar de tudo o que tenha dado errado, conseguem enganar a todos — e sobrevivem para contar e ensinar sobre seu admirável retorno à vida. É mais uma vez o estopim dourado.
Conheci muitas dessas árvores vigorosas nos bosques do norte onde passei a infância. Contudo, naquela época, como ocorre com frequência na vida das mulheres também, as grandes árvores eram repetidamente expostas a riscos por conta de rápidos esquemas de incorporação imobiliária. Em vez de ver a terra como um corpo vivo e construir em harmonia com suas curvas de nível, empreendimentos inteiros eram dispostos sobre o terreno, forçando-o a se adequar a ideias que não eram da sua criação.
Foi assim que muita terra fértil e cultivável ficou soterrada debaixo de cubículos de casas idênticas, tanto que os morros e patamares da terra pareciam blindados como as escamas sobrepostas ao longo da espinha de um dragão. As praias foram transformadas em concreto; e trilhas verdejantes foram asfaltadas até praticamente não restar um trecho de verde sequer. Nesse ambiente, as árvores, tanto as velhas quanto as novas, eram ameaçadas diariamente pela poluição, pela invasão do seu espaço, por alterações no lençol freático e, em consequência, pelo desequilíbrio dos nutrientes essenciais que extraíam do solo.
Uma dessas árvores ameaçadas que conheci era uma enorme avó, um choupo. Essa árvore específica tinha sobrevivido por vários séculos a todo tipo de intempérie, inundação, congelamento e a todas as criaturas que tentaram corroê-la. Ela era o que nós chamávamos de "árvore da nevasca no verão" porque lançava suas sementes diminutas presas a uma reluzente penugem branca. Elas voavam e flutuavam nos ventos quentes da primavera, gerando uma tempestade de neve fina e transparente. Seria um equívoco imaginar que, por lançar suas sementes em saias cheias de babados, ela fosse frágil. Ela não era. Era uma guerreira. Um dia, porém, mesmo depois de provar seu valor nas batalhas que nunca buscava, mas que vinham confrontá-la diretamente repetidas vezes, e embora continuasse resistindo, ereta e majestosa... bem, um dia ela foi "descoberta" por um grupo de gente armada de serras de arco e machados. E então, ao longo de algumas semanas terríveis — pois tamanha era sua circunferência, tão profundos eram seu coração e sua força —, sem nenhuma cerimônia, ela foi picada e derrubada.
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